The Grimoire Archive
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Mirativo

Ele já teve essa alucinação antes. Em se tratando de alucinações, ela nem boa é: Praedyth ouve o rádio falar com ele, vozes se sobressaindo em meio à estática. Seria melhor se, pelo menos, usasse uma voz familiar, uma voz de Pahanin ou Taeko ou Kabr. Àquela altura do campeonato, até Mir ia servir. Ele vira o rosto para o rádio. A bochecha dele raspa no granito. Dói de leve, assim como todo o resto do corpo, amodorrado pelo excesso de tempo e pela falta de Luz. — Você já falou isso! — informa ele, solícito, à alucinação. Ela grasna: — Já? Quando? — Da última vez. Ou da penúltima. Cronologia é uma arte perdida naquela cela. — Alerta: espeleologistas, favor contatar a banda dois-dois-sete ponto nove-sete, não sei o quê, possível Impacto Celeste... A voz dele vai morrendo. Falar dói. — Pode repetir? — Agora a alucinação ganha outra voz, mais nítida, de homem. Até parece a do Mir. — O número da banda? Praedyth deita de costas, encarando aquele teto sempre branco. Suspira. Já catalogou as constelações pela forma dos pontinhos: gatos, Fantasmas, uma lula aqui e ali. — Alô? Você, quem quer que seja... — Volta a primeira voz. — Estamos ligando da banda dois-dois-sete ponto um-sete. Se outra banda dois-dois-sete entrou em contato com você, nós precisamos saber. — Isso você também já falou da outra vez. Uma terceira voz interrompe. — O outro grupo usou essa mesma frequência? Sim. Praedyth anda sem forças para mexer no rádio e fazer novas tentativas de entrar em contato com o mundo fora daquela cela. Anda sem forças para fazer qualquer coisa além de contar intervalos de tempo que não significam nada, esperando a próxima janela para poder arriscar uma mensagem. — Tentamos essa frequência pelo menos uma dúzia de vezes no último mês. Nunca tinha funcionado antes. Então o que mudou? A ponderação o tira do torpor. Praedyth se senta, o que resulta em uma onda de náusea, e repete a pergunta em voz alta. Talvez não seja alucinação. Talvez ele tenha conseguido finalmente atravessar as paredes da Câmara, de alguma maneira. Talvez ainda tenha uma chance. — Alô? Você ainda está aí? A única resposta é uma onda de estática. O sinal que captou, qualquer que fosse, não está mais lá.