Tino
"Pelas tetas dos Fundadores, Tino", Callie bufou, com nojo. A sala de reunião virtual era propositalmente tão monótona quanto a física, e aumentava a estranheza da escolha do avatar dele. "Eu não vou falar com você se você for uma mandala. Me dá dor de cabeça."
"Esse é o futuro! Você não é meu supervisor." Ela o dispensou e voltou ao cronograma com os outros técnicos da saúde.
"Como esperam que a gente receba tantas pessoas num só turno?" Tammiya pegou uma cópia do arquivo com o cronograma e o integrou em seu braço — metade da equipe já estava tirando proveito da temporalidade das "tatuagens virtuais" para facilitar o acesso a anotações importantes.
Tino se animou com a fofoca. "Você não ficou sabendo? Houve uma ocorrência de anafilaxia no último turno lá em Costaviva. Algum idiota esqueceu de avisar que era alérgico a mariscos."
"Mas os novos inibidores de catepsina são derivados de ostras."
"Exatamente", Miku confirmou. O avatar dela estava caído. "Entupiram ele de sono profundo e ele inchou que nem um baiacu. Vomitou em tudo! Ainda bem que eu estava só operando o drone, porque o cheiro deve ter sido um horror." Tino abriu a transmissão de vídeo.
"Por que as pessoas acham que a gente faz todas essas perguntas?"
"Já chega!" Bijan se acomodou em uma cadeira virtual à mesa de reuniões. O olhar gélido do supervisor foi transposto intacto para a NebulArca. "As pessoas ficam com medo e esquecem as coisas. Faz parte do que é ser humano. Façam seu trabalho como profissionais."
"Mas nós já estamos atrasados, chefe. E pessoas assim pioram tudo pra todo mundo."
"Eu entendo sua frustração, Tammiya." Bijan separou o cronograma em suas respectivas atribuições. "Mas nós somos técnicos da saúde. Somos a estabilidade de que eles precisam. Empatia em primeiro lugar."
"Boa, chefe", Tino interveio.
"E por falar nisso… Tino, você pode ser matemático no seu tempo livre. Mas, enquanto tivermos cinco milhões de pacientes assustados em busca de segurança, mantenha o respeito."