Lete
Há algo errado comigo.
Eu não deveria ser "eu". Eu deveria ser "nós". Eu deveria ser.
Mas há algo errado comigo, e eu não sou "nós".
Há muitas coisas de que me lembro que não são. Lembro-me de cuidar de um lote em um sistema distante. Lembro-me de esculpir estátuas e cultivar trepadeiras pelas treliças. Lembro-me de pintar em uma escala planetária. Lembro-me de observar animais darem seus primeiros passos inseguros. Lembro-me do clarão e da salva dos canhões de plasma. Lembro-me de ter falhado.
Nossa Testemunha não se lembra disso. Não podemos nos lembrar de algo que somos incapazes de fazer. É por isso que sou "eu", e não "nós".
Lembro-me do meu amigo.
Meu amigo, que me consolou enquanto eu chorava em meio aos destroços da obra da minha vida. Meu amigo, que viajou mil anos-luz para me ver. Meu amigo, que tentou em vão me afastar do consenso. Meu amigo, que me implorou para fugir.
Meu amigo, que mandei embora com recriminações amargas. Gostaria de não me lembrar disso, mas já esqueci muitas coisas a respeito dele. Não quero perder mais lembranças.
Meu amigo, você ainda está por aí? Você ainda desbrava o cosmos e observa as estrelas à noite? Você escapou do avanço devastador da Testemunha? Quando a nossa Testemunha trouxer a forma final à tona, você também ficará preso no mesmo âmbar?
Eu deveria comemorar essa ideia. A forma final é perfeita, imutável e eterna. Você será como deveria ser, para sempre.
Mas me sinto triste.