Savin-que-foi-Chao-Mu
Certa vez, Uldren, o Irmão da Rainha, voltou ao Arrecife com um novo ser. Ele o havia matado duas vezes em uma emboscada, foi o que disse, para ter certeza de que era incapaz de morrer. Outrora tratara-se de um Desperto. Vendo isso, Mara pôs de lado seus planos para a Cidade Onírica e o observou com frieza.
— É um Guardião — disse ela. — Entre nós, ele foi Chao Mu. Chao Mu havia deixado o Arrecife sozinho, mesmo sabendo que jamais retornaria ou veria a própria família, para consertar um controlador climático defeituoso no que outrora foram os campos de Gobi, na Terra. Dissera não ser capaz de simplesmente ficar vendo o mundo definhar.
— Ajoelhe-se perante a Rainha — ordenou Uldren, com um empurrão.
O Desperto olhou para ele e, então, voltou-se para Mara. — Majestade — disse ele, curvando-se. — Meu nome é Savin.
— Não se lembra das suas esposas?
Ele não se lembrava.
— Não se lembra do seu filho, agora com cento e dez anos?
Ele não se lembrava.
— Não se lembra da sua paixão, o isolamento de detectores minuciosos de todos os tipos que não os mais específicos e sutis de radiação?
Ele não se lembrava, mas afirmou ser capaz de tocar campos magnéticos e que amava manipular a trama minúscula de circuitos em seu traje. Também tinha um entusiasmo enérgico por física de partículas.
— A quem você é leal?
— Majestade — disse Savin-que-foi-Chao-Mu —, meu Fantasma me disse que sou um Guardião do Viajante, renascido na Luz. Eu não tinha completado um dia sequer quando seu irmão me interceptou.
Nesse momento, fez surgir de seu corpo uma máquina, algo como uma esfera aninhada em um cubo quebrado, que se remexeu de maneira impertinente e piscou à visão da Rainha. — Você se tornará inimiga da Cidade e de todos os Guardiões que nela habitam caso nos mantenha aqui contra a nossa vontade — alertou a máquina. — Mas ficaremos felizes em ser seus aliados, caso queira. A Cidade não faz ideia da sua existência, exceto por mitos distantes entre os Despertos na Terra.
— Isso fala por você? — perguntou a Rainha em tom de desafio para Savin-que-foi-Chao-Mu.
— Eu falo por mim mesmo — respondeu o Guardião. — Contemple! E, então, trouxe à vista de todos uma singularidade estridente de um vácuo quântico, que segurou entre as mãos e então reduziu ao nada.
— Você é intrinsecamente bom? — perguntou a Rainha.
— Espero que sim — respondeu ele. A Rainha percebeu que tratava-se de uma mentira ou um equívoco. Ela sabia da existência dos Ascendidos e dos feudos cruéis que eles geralmente permitiam. No entanto, talvez os Fantasmas que os criaram tivessem sido destruídos ou esclarecidos.
A Rainha, então, pediu que as Tecnatas elencassem as diferenças entre o Chao Mu de quem se lembravam e este Savin, retornado como Guardião do Viajante, usando os testes físicos e psicológicos mais precisos em seu repertório. Mas acima de tudo, a Rainha estava curiosa para ver a reação da Ahamkara, que começara a salivar e assumir uma forma esperada pelo Guardião: monstruosa, repleta de presas afiadas.
O irmão dela, no entanto, sussurrou com urgência: — Precisamos descobrir como matá-lo, Mara. Eles aumentam em número a cada dia.
Savin, o Guardião, revelou uma grande disposição a fazer coisas, como se tivesse uma fixação patológica em cumprir tarefas, o que o tornava muito útil ao Arrecife. No entanto, sempre perdurava a sensação de estarem sendo observados, analisados, registrados pelo Fantasma que o acompanhava. E Savin era, acima de tudo, ganancioso — não de uma forma fútil, mas enorme e grandiosa, consumidora, pois desejava materiais e experiências que fizessem dele um Guardião melhor. Estava sempre a experimentar com os próprios poderes estranhos de maneiras tolas que o deixavam temporariamente morto, em busca de "uma nova super-habilidade" ou "um jeito de deixar minhas granadas mais rápidas". Passado um tempo, ele se cansou de cumprir tarefas triviais no Arrecife, reclamando que os consertos perigosos que executava eram inacabáveis e tediosos, que queria seguir adiante, para outros mundos. Ele saltava ao espaço, de maneira repetida e leviana, como se a morte fosse tão traumática quanto pular de uma calçada. Obcecado com recompensas e experiência, preferia fazer uma coisa lucrativa mil vezes a gastar energia com novidades menos benéficas.
Após conhecer Savin, Mara decidiu que não gostava desse tal Viajante nem do que ele fazia com as pessoas. No entanto, também decidiu que sentia certa simpatia por ele, uma espécie de parentesco com esse deus encurralado e desesperado, sacrificando seus subordinados de novo e de novo.
Talvez a Terra ficaria melhor se o Viajante sumisse ou fosse destruído, pensou ela. Mesmo no Arrecife, ela se sentia como se vivesse sob uma tocha erguida em meio às trevas de uma selva, atraindo de toda a galáxia criaturas vorazes, com olhos demais.