Provocado
—-O que mais você pode me dizer sobre esta sua família?—-
Eles se foram. Mortos. Todos eles. Não importam mais.
—-É mesmo?—-
O que você quer saber, afinal? Quer saber mais sobre meu pai, o traidor Lubraeano? Ou talvez da minha mãe, outra traidora Lubraeana? Eu deveria ter imaginado. Posso lhe contar sobre o meu clã, e sobre meu pai e minha mãe de lá. Mais traidores Lubraeanos. Eram todos moradores da Cidade antes, leais ao Regime antes de se exilarem. Percebe o que eu quero dizer?
—-O que percebemos são assuntos pendentes… Percebemos uma criança querendo aprovação… Percebemos muitas perdas.—-
(Contentes. Juntos. As chamas ardem intensamente. Nossa caverna está iluminada. Escondemo-nos ali para nos proteger — o céu turvo está lá fora, e certamente há desabrigados esta noite. Aqueles que serão destroçados. Pela natureza. Pelo Sol Umbral. Por aqueles guardas Lubraeanos que se autodenominam Perseguidores, seguindo em nosso encalço em nome de um regime brutal.)
(Muito tempo atrás, existiam apenas Patrulheiros sobrevivendo às condições extremas do ambiente coberto de uma flora mutante e sanguinária. As criaturas selvagens que sobreviveram são capazes de se camuflar até ficarem praticamente invisíveis — perfeito para passarem despercebidas até despedaçarem sua pele e seus órgãos.)
—-E agora?—-
(Estamos divididos. Divididos por um orbe reluzente que apareceu brevemente no nosso céu, como se ter dois sóis já não fosse o bastante.)
—-E esse orbe reluzente?—-
Não é da minha época. Ele chegou. Nós evoluímos. Ele partiu. Deixou-nos uma bagunça — aqueles que acreditavam na vantagem do progresso. E aqueles que não acreditavam.
Os que acreditavam moravam na Cidade. Controlavam-na. Banhavam-na somente com a luz do Sol Safírico e com dias sem fim para afastar os terrores da noite, revelando os terrores entre nós. Promoveram o progresso pelo bem da minoria enquanto o resto se arriscava sob os sóis alternantes.
—-E esse orbe reluzente, você o vê agora?—-
(Lá está. Brilhando como prata no céu. Como as histórias que contam.)
Dando esperança para depois deixar tudo nas mãos de quem deseja o controle, mas não tem comprometimento e entendimento.
—-Olhe para eles agora.—-
(Corpos. Membros. Restos vaporizados. Uma safira estilhaçada. Lubrae irreparável. Um sol Umbral que ainda reluz escuridão.)
…O que foi que eu fiz?
—-O que era necessário.—-