The Grimoire Archive
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IX.X.I: Apócrifos

NENHUM DEUS, APENAS DEMÔNIOS Malkanth se sente deslizando do seu corpo. O exorcismo é rápido, se dá sem esforço. Então, começam os sussurros... "Eu aticei o fogo em seu irmão — eu intervi para que ele desferisse o ataque. Eu precisava que o ferimento a libertasse. A perfuração em seu coração requer cuidados, mas seu invólucro é adequado para o que está por vir. Eu sei que é inusitado, mas creia, minhas ações permitiram que o talho causasse o mínimo de dor, e agora, isso... Agora, a paz." "Eu não pedi paz, ó oculta Irmã das Formas." "Você conhece essa voz?" "Eu sei que você tem muitas. Ouço suas tentações sutis desde que era criança. Eu jamais busquei o aconselhamento delas." "Você não pediu nada, isso é verdade. Seu interesse era se apoderar. Você é geniosa, traiçoeira. Gosto de você. Não se engane, eu não julgo seus desejos, tampouco a tentativa de vê-los realizados. "Seu único pecado, aos olhos daqueles que importam, foi não estar em posição de concretizar por completo o seu potencial. Ao vislumbrar uma oportunidade, você tomou uma atitude, como tantos outros antes. No entanto, não foi suficiente. Pior ainda: ela foi limitada ao não ver por completo o poder oculto tão claramente ao seu alcance." "Akrazul é uma força digna de mudança. A fúria dele vai..." "Ser inútil. Matar sacerdotes incapazes. Assassinar as Filhas de um Príncipe arruinado. Conspurcar a lógica da espada e coroar um novo governante. O Enxame continuará não sendo nada além de um tênue tremeluzir quando for chegada a hora de o cosmos e todos os seus propósitos serem ponderados e julgados por aqueles que se sentam em tronos além da nossa imaginação." "Você se refere a deuses intangíveis pelos quais eu não tenho nenhuma consideração. Meu caminho... o sacrifício levado a cabo aqui... servirá para convergir meus propósitos a respeito de preocupações mais imediatas do que aqueles à espera no fim de tudo." "Nisso concordamos. Meu repúdio ao legado do Enxame não é um apelo para que você reverencie deuses totalmente à parte do aqui e do agora. Na verdade, é justamente o contrário... O Dragão e o Verme. A Larva e a Rainha. O peão e o deus. São tantas divindades. Tantas regras. Incontáveis mitos foram enxertados no flagelo que é a vida. Eles não são esperança, promessa ou poder. São exageros nascidos de equívocos. Ainda assim, governam muitas coisas — as suas e as minhas ações. O dia a dia. Os ciclos. As evoluções. Sempre há ídolos para guiar e punir, amar e destruir. Mas há alguma verdade neles? A quem devemos apaziguar com adoração e reverência? Com ofertas e sacrifícios? Com louvores que servem de armadura para seus egos frágeis? Na verdade, minha criança... Não há deuses. Apenas absolutos. Entretanto, cá estamos, à beira da maior das aniquilações. O tempo deixa de ser tempo ante os radiolários que dançam na história que se foi e na que virá. O espaço deixa de ser espaço quando rasgamos a realidade para erigir nossos próprios planos secretos a respeito da existência. A morte não é mais a morte quando os Campeões da Luz se erguem e sucumbem, sem nunca recuar, jamais conhecendo verdadeiramente a derrota. Só resta a ignorância — o último dos absolutos, a inexpugnável verdade final. O tempo pode ser dobrado e quebrado — redirecionado conforme os caprichos daqueles que detêm o conhecimento e a determinação. O espaço pode ser destroçado — escavado para revelar reinos novos e ancestrais sem nenhum vínculo com o compreensível. A morte pode ser ignorada — por meio de energias impossíveis e tecnologias avançadas, tanto físicas quanto indistinguíveis da magia. A ignorância, contudo, é a constante inconquistável. É possível saber mais, mas jamais saber tudo." "O que vem depois, quando a imortalidade e a totalidade do espaço e do tempo podem ser alcançados para que se conheça o último dos desconhecidos?" "Quando o absoluto final sucumbe, a realidade estremece e vacila, e um novo absoluto emerge... um fim, peremptório e cabal." "Você quer ver esse fim?" "Eu quero garantir que ele não ocorra." "Você vai me levar junto?" "Eu cheguei a considerar isso, mas não. Você cumpriu seu propósito." "Como, se eu falhei?" "Você falhou no que diz respeito aos seus objetivos, pobrezinha, não aos meus." Malkanth pondera sobre essas palavras e se sente tomada por um pavor súbito, pela sensação de que algo se encerra, sentindo sua essência se esvair nada adentro. Seu derradeiro pensamento se volta para a irmã...