Fideicídio II
— Não era para ter sido assim — sussurra Alis Li, bem abaixo da Coluna da Nave, as barcaças funerais no Lago de Folhas tornadas fogo branco de magnésio. As vozes das Paladinas se erguem na brisa de verão — primeiro o coral, seguido pelos hinos solitários e lamuriosos cantados por amantes e amigos próximos. Estão cantando à morte dos companheiros perdidos. Um dos oitocentos e noventa e um foi abatido hoje, morto por um laser de matéria, uma arma de bósons coerentes: Não restou quase nada a cremar. Lasers de matéria são o tipo de arma horrível de maltecnologia que Alis pensou ter trancado a sete chaves nos cofres da Coluna da Nave. Armara algumas das Paladinas com elas, só algumas — mulheres que não suportaria perder…
A ideia de que alguma delas pudesse ter desertado e se juntado à Diasirmo é de partir o coração.
— Não era para ter sido assim — repete Alis. Ela não tem um confidente já faz cinquenta anos: Não há ninguém a quem possa exibir dúvida. — Juro que não.
— Eu sei — diz Mara. Os eutecnos a encontraram e tiraram daquele cume montanhoso com uma das aeronaves de decolagem vertical que, até pouco tempo atrás, Alis só empregara como ambulância; isso até a guerra começar.
— A missão era levar a jornada Humana a um mundo novo. — Alis caminha pelo convés de madeira amarrado à escotilha de pressão da Coluna da Nave, quase um quilômetro acima do logo. — Construir uma sociedade melhor, baseadas nos princípios de igualdade, conhecimento e paz. Eu tenho o estatuto, Mara. Ele se lembra do que eu não consigo lembrar. Não estava nos planos abandonarmos nosso corpo ou brilhar como as estrelas, ou… ou… — Ela solta um gemido frustrado e agarra os corrimãos. — Ou seja lá o que a Diasirmo acha que eu tirei deles.
— Ela acha que você tirou deles até a capacidade de imaginar a divindade.
Alis encara a outra com um olhar penetrante. — Isso é obra sua, Mara?
— Nada tem uma só origem — responde Mara.
— Ela foi até você, lá no topo da montanha, e perguntou o que foi que eu tinha feito? Você respondeu? É por isso que ela está tão convicta de que eu — Alis engole em seco, perante o sabor amargo das palavras da inimiga — a escravizei em mera Humanidade?
— Não precisei contar a ela. — O cabelo branco de Mara estremece em meio ao vento quente. Uma manada de cavalos negros cruza o horizonte ao norte, todos nascidos nos úteros da Coluna da Nave: caçados por uma caçadora de pernas longas e seu collie. — Você não guarda segredos suficientes, vossa Majestade. A Diasirmo pode ter aberto qualquer texto seu para ler a história que você conta. "Nós nascemos quando uma grande nave tombou em uma pérola de espaço estilhaçado. Fui a primeira a acordar e, em meu despertar, reduzi o potencial do vazio em uma forma que eu entendia…" Como ler essa verdade sem ouvir arrogância?
Alis pensou que Mara pudesse mesmo dizer isso. Alis também pensou que Mara pudesse tentar empurrá-la daquela beirada, mas agora sabe que esse é um medo trivial. Mara não é a Diasirmo: ela tem noção do valor inestimável de uma única vida Desperta que seja.
— Por que você ama tanto as mentiras? — pergunta ela.
— Não mentiras. — O resplendor pálido dos olhos de Mara; o rubor violeta ao redor deles. — Segredos. Mesmo se todo mundo dividisse uma única verdade, todas as nossas mentes produziriam diferentes versões dela. Nós ostentamos essas subverdades, e, como flores de sementes diferentes, essas subverdades competem pela luz da nossa atenção. Depois de um tempo, só ficam as variedades mais ferozes e provocantes. E nem sempre são as mais verdadeiras. Melhor guardar segredos, Majestade. Melhor alimentar um grande mistério, sufocando as flores antes que cresçam. É assim que eu seria Rainha.
Abaixo, o Lago de Folhas reluz na cratera escavada pela proa cogumélica da Coluna da Nave. Uma a uma, as barcaças funerais estão se apagando.
— Quero acabar com essa guerra — diz Alis Li à outra Desperta. — Quero negociar uma paz. Preciso da ajuda da sua mãe. O que você pediria em troca?
Mara sorri graciosamente e baixa a cabeça. — Nada, além de um favor futuro.