Registro Sobre o Filamento II
Apesar de já estar ciente da maneira correta de usar o filamento — com a mão frouxa, deixando de lado a ideia de que ele pode ser controlado —, algumas coisas ainda me escapam. O desejo de soltar por completo, por exemplo.
É tolice, claro, pensar que deixar de lado a necessidade de controlar essa única coisa se estenderá a todas as áreas da minha vida. Ceder o controle em um jogo de xadrez não significa a mesma coisa na filosofia. E, no entanto, a verdade é que as pessoas não são sistemas distintos e desconectados; elas são muitos sistemas interligados. Uma faceta é contígua à seguinte.
Eu penso em fiar. Faz muito, muito tempo que minhas mãos não tocam uma fibra bruta, mas houve períodos na Idade da Treva em que, se alguém quisesse tecido, ele deveria ser feito do zero. O velo era tosquiado e depois cardado para remover as imperfeições e alinhar as fibras. E depois disso? Uma única fibra é curta e frágil. Ela se rompe com um leve puxão. É inútil.
Mas elas se tornam úteis se você torcer várias juntas. Tecelável ou tricotável, seja como for. É assim que se faz um tecido forte: das coisas mais delicadas.
Eu penso em fiar e me lembro da forma como a fibra não fiada passa pelos dedos até o fuso. Um aperto, mas não muito forte; apenas o suficiente para direcionar e estreitar. Se for demais, a fibra não passa e a fiação não pega.
A metáfora é transparente. Obviamente, estamos falando do filamento. Assim como estamos falando de um ofício que eu conhecia há muito tempo. Os erros de principiante só podem ser solucionados quando se aprende como é o fracasso, mas a maioria dos novelos não desatará o fiandeiro se algum erro for cometido.
E eu tenho medo. Não só da morte, de desperdiçar aquele sacrifício final que Sagira fez para salvar minha vida. Mas de abrir a mão e descobrir que não dói mais, que o espinho que há tanto tempo imaginei ali já se foi.
No fim das contas, é tudo a mesma coisa. Acho que já posso soltar, deixar o que é realmente temporário afundar na água para alcançar qualquer capacidade significativa com o filamento. Até mesmo a dor pode ser guardada com zelo, como se fosse um tesouro. Mas não precisa ser.
É fascinante o que as lentes do filamento nos mostram sobre a Treva.