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Confissão de Esperança | Parte Dois

Aqui na selva, sobreviver é questão de saber evadir as patrulhas de Decaídos. Todo o resto, todos os demais perigos, são secundários. Insolação. Inanição. Feras esfomeadas. Bandidos sanguinários. Tudo isso pode ser avaliado e gerenciado. Mas os Decaídos — esses piratas cruéis — caçam e matam não só por sobrevivência… mas por esporte. Eles se divertem com o massacre. Eu estava guiando nosso grupo desordenado pela mata cerrada, mas, com uma criança para carregar e muitos sobreviventes feridos, não fomos rápidos o bastante. Tínhamos sidos avistados a alguns quilômetros. O ataque foi rápido e violento. A mãe da criança pereceu quase que de imediato. O pai, por estupidez — embora talvez seja melhor pensar que foi valentia —, deixou o luto e o medo assumir o controle. Ele correu em socorro dela, mas não havia socorro a prestar. Agora ele também se foi. Dois pais mortos. Uma criança órfã, com dons que ainda não tem como entender. Outros tomaram o infante nos braços e correram. Ele chorava — confuso, apavorado. Abafaram os sons do medo dele, dirigindo-se para o cerne da floresta. Eu os segui. O menino era minha responsabilidade, e eu o protegeria — se pudesse. Minha única opção era ficar junto a ele. E, mesmo assim, cá estou eu… Vou ditando tudo isso às pressas, dando contexto, caso necessário, à minha escolha — ao momento de fraqueza que levou ao renascimento da criança. Conto minha história conforme fujo, então fiquem atentos à natureza entrecortada desse meu apelo truncado por compreensão, além de um breve relato do que se deu aqui. Enviarei essa mensagem em um sinal para qualquer Fantasma que consiga captá-lo. Os Decaídos estão vindo. Eu me separei do grupo para atrair os perseguidores para longe dos humanos. Caso eu sobreviva, voltarei para o menino. Caso eu pereça, ele ficará aos cuidados de outros — e só terá uma única, segunda, vida para levar. Eu o deixo sob os cuidados de um casal apavorado. No entanto, eles são sagazes e carinhosos. Têm coragem, mas sabem quando fugir, quando sobreviver. Ficarão escondidos até que os Decaídos tenham seguido em frente, minha Luz servindo como distração para afastá-los o máximo possível desses Humanos. Eu me revelei para os piratas e disparei para longe dos últimos sobreviventes — tornei-me um alvo para ganhar tempo. Agora, porém, o tempo está acabando. Os Decaídos estão chegando perto. Mais e mais perto. Já posso ouvir os gritos de guerra. Já posso sentir as fagulhas das lâminas. Já aprenderam há muito tempo que matar um Fantasma é a solução de um problema futuro. Não me arrependo da escolha que fiz. A criança deu esperança, mesmo que efêmera. O que se dará dela a partir de agora, ninguém sabe. Mas o menino demonstra potencial, caso encontre refúgio. Caso ele encontre orientação. Esta não é uma confissão. Esta é a minha esperança. Esta é a minha… – Fragmento da última transmissão de um Fantasma desconhecido